"As  minhas netas não querem ir para a cama sem ver o 'Tragam Pão!'"

...

"As  minhas netas não querem ir para a cama sem ver o 'Tragam Pão!'" (Foto: Reprodução)

É difícil falar de Noélia Jerónimo nem pensar na icónica frase que repetia vezes sem conta quando provava pratos dos aspirantes a cozinheiros em “MasterChef”. “Tragam pão”, gritava a chef em sinal de satisfação pelo que tinha à sua frente. A frase marca o regresso da chef à televisão. Agora a solo, Noélia Jerónimo apresenta o “Tragam Pão!” no 24Kitchen. O programa de receitas conta com poucas semanas no ar, mas a chef já tem uma legião de fãs.

 

“Devo ter alguma coisa que os miúdos gostam imenso que vêm ao meu restaurante e começam a dizer: ‘tragam pão’. E as minhas netas não querem ir para cama sem antes ver o programa”, conta a chef Noélia em entrevista ao Lifestyle ao Minuto.

As gravações decorreram durante quase um mês. Antes do início do verão, a chef percorreu várias vezes a A2 entre Lisboa e o Algarve, onde tem o restaurante em funcionamento, em Cabanas. O convite para este desafio foi feito pela amiga Joana Barrios e aceitar acabou por ser uma decisão fácil. “A partir do momento em que a Joana me convida, não podia dizer não.”

O programa “Tragam Pão!” assume-se como um desafio completamente diferente do que tinha feito até aqui. Apesar de ser um mundo novo, optou por não se basear em nada, nem em ninguém. 

“Não tive referências de ninguém. Acho que o programa é igual a mim própria. Ficou extremamente giro, divertido, onde as pessoas podem aprender e divertir-se ao mesmo tempo com as minhas gargalhadas, com as minhas asneiras, com as minhas algaraviadas, com os meus moços e moças.”

Os episódios de "Tragam Pão!" podem ser vistos no canal 24Kitchen de segunda-feira a sexta-feira, às 21h00.

Leia a entrevista completa.

Como é que surgiu este convite e a ideia de fazer um programa de receitas? 

A Joana Barrios ligou-me a perguntar se eu estava interessada. Foi também através do Pedro Bravo [produtor e realizador]. O Pedro pensou em mim, a Joana desafiou-me e é a minha madrinha do programa “Tragam Pão!. Foi assim que tudo começou. 

E aceitar foi uma decisão fácil?

A partir do momento em que a Joana me convida, não podia dizer não. Gosto muito da Joana. A Joana é uma pessoa muito especial e um ser humano incrível. Não me iria desafiar para uma coisa que eu não tivesse à vontade.

Era um registo que já gostava de ter feito? Era uma coisa que ambicionava fazer?

Nunca sequer pensei em fazer algo deste tipo. Acho que nem sequer tive tempo para sonhar, se quer que diga a verdade. Foi desafiante, mas gostei tanto de ter feito. Acho que tenho algumas coisas a melhorar. É a primeira vez na vida que faço este tipo de programa. Anteriormente só tinha feito o “MasterChef”,  mas são coisas completamente diferentes.

Leia Também: Nunca faça isto num restaurante onde o menu é mais caro que multa de CR7

Apesar de ser televisão, este programa acaba, lá, está, por ser um registo diferente de “MasterChef”. Que desafios teve e que adaptações foram precisas?

Não tive desafios alguns. Lembro-me que uma vez o Ruy de Carvalho, quando entrei no “MasterChef” disse-me: "Ó filha, sê tu própria, não inventes, és tu". Eu tive aí uma hora a falar com ele e no final só me disse isto: "Sê tu própria". O Ruy de Carvalho é um grande amigo, é um senhor pelo qual tenho uma grande amizade e às vezes quando tenho alguma dificuldade falo com ele. É o melhor ator de todos os tempos no nosso país. É um ser humano incrível, único no mundo. E foi o que o Ruy me disse: "Olha, não inventes, filha, não inventes palavras, não inventes nada, porque senão não te vais sair bem. És tu. És tu e ponto, não existe mais nada, és tu. Faz sempre aquilo que tenhas a certeza que sabes que estás a fazer". Só isso, mais nada. Não posso pensar em ser igual a outra pessoa, a outro chef ou a outro colega. Acho que é um programa diferente. É ser Noélia, basicamente. 


Teve referências de outros colegas? Viu e ouviu alguma coisa que gostava de ter neste programa?

Não tive referências de ninguém. Acho que o programa é igual a mim própria. Ficou extremamente giro, divertido, onde as pessoas podem aprender e divertir-se ao mesmo tempo com as minhas gargalhadas, com as minhas asneiras, com as minhas algaraviadas, com os meus moços e moças, a minha maneira ao fim e ao cabo. Acaba por ser um bocadinho a minha maneira de ser. Acho que consegui chegar a muitos corações no nosso país, pessoas que não me conheciam, nem mesmo através do “MasterChef”. Pelo menos 90% ou 95% dos comentários que tenho tido são positivos. São muito positivos.

Como tem sido esse feedback?

Neste momento tenho uma legião de fãs adultos, pessoas de mais idade e especialmente crianças, que não tem explicação possível. Eu devo ter alguma coisa que os miúdos gostam imenso que vêm ao meu restaurante e começam a dizer: "tragam pão". Ainda hoje estava lá uma miúda com três anos e ela: "Traga um pão, traga um pão". Tem três anos, atenção. E as minhas netas não querem ir para cama sem antes ver o “Tragam Pão!”. 

A escolha do nome do programa foi uma tarefa fácil? Já era uma expressão que vinha do MasterChef, mas não sei se houve outros nomes em cima da mesa.

Não fui eu que escolhi o nome. Quem escolheu o nome foi o Pedro [Bravo]. Ele é que tratou disso tudo e fez com que as coisas acontecessem. Eu fui fazer acontecer. Geralmente não gosto de me meter nessas coisas. Entendo mais de cozinha do que dessas coisas mais complicadas.

Mas ficou satisfeita com a escolha? Já que era uma imagem de marca sua...

Acho que é diferente, é engraçado. Tragam pão significa que existe muito sabor. Nós só pedimos pão para o molho quando está extremamente bom. Se não aquilo não nos apetece comer. Se não estiver bom, ninguém vai pedir pão, ninguém vai fazer seja o que for, o que seja, manda para trás, simplesmente. Agora, um ‘tragam pão’ significa que existe algo com muito sabor, que não pode ficar uma gota no prato ou seja aquilo que for.

Houve assim alguma coisa mais complicada durante as gravações?

Correu sempre muito bem. Houve uma noite em que não conseguia dormir, que eu de vez em quando ia ao Algarve. Houve um dia mais complicado em que estava extremamente cansada. O Pedro dizia que se notava muito quando estava a gravar. Nessa noite tinha tido alguns problemas e não consegui dormir. Acho que devo ter dormido talvez duas a três horas, no máximo, se tanto. Não consegui descansar. Ou seja, não ficámos com a mesma energia. E já nem me lembro em que programa foi, mas depois o Pedro até me disse: "Olha, afinal de contas, no final nem se notou nada". Eu sentia que estava extremamente cansada, porque vim para baixo [para o Algarve], já era maio, o restaurante [em Cabanas] já estava a 60%, 70%. O verão já estava a começar e há sempre mais preocupações. Parecendo que não, faço muita falta no restaurante. Fico extremamente preocupada, não é? Houve alguma situação de que eu já nem me lembro que me deve ter tirado o sono e nessa noite não dormi. Lá dentro correu sempre tudo muito bem, porque sabia o que é que estava a fazer, sabia aquilo que queria e eles [a produção] brincaram comigo e foi uma brincadeira pegada.
Foi leve, foi divertido, foi Noélia a ser Noélia, simplesmente a Noélia Foi tudo leve e divertido.

Foi leve, foi divertido, foi Noélia a ser Noélia, simplesmente a Noélia. Foi estar em família ao fim e ao cabo. Eles acabam por ser todos um bocadinho meus filhos, porque eu tenho idade para ser mãe deles. Todos nós brincávamos, são miúdos incríveis, uma equipa incrível, a sério. Já no "MasterChef" apanhei pessoas extraordinárias que levo para o resto da vida, pessoas incríveis, todos. Não tenho nada a dizer de ninguém.

Como é que foi feita a seleção dos pratos que foram gravados?

A seleção foi feita das coisas que faço praticamente todos os dias. O meu menu muda todos os dias. Muitos desses pratos, ou 90% desses pratos, eu já tive ou tenho no meu restaurante. Trabalho com matéria-prima sempre fresca. Se o mar não dá, não posso cozinhar, não é? E então tenho de ir à procura constantemente de pratos novos. E basicamente foi isso. O menu foi consoante aquilo que havia e, claro, completamente pensado, o que é que eles [produção] gostavam mais, o que é que gostavam menos, o que é que o Pedro realmente queria de mim, o que é que diretores queriam de mim também.

Certamente existiam pratos que mais automaticamente se associavam à Noélia e que fazia sentido ter no também no programa.

Exatamente, por isso é que fiz muitos arrozes.

Será que podemos esperar mais temporadas? Isto é uma coisa que poderá acontecer ou ainda é cedo? 

Vou ser sincera, espero que sim porque adorei fazer. Agora, depende do público, depende das pessoas e depende também do meu tempo, porque o meu tempo também acaba por ser um bocadinho limitado. Agora, neste momento, depende disto. Depende de saber se realmente tenho condições de fazer, porque também estou à espera de ser avó, não sei se realmente vou ter o tempo disponível. 

Mas se dependesse só da Noélia poderia acontecer?

Com certeza, com certeza que sim. Além do mais gostei imenso de trabalhar com essa equipa maravilhosa. São fantásticos, são realmente seres humanos incríveis, maravilhosos. E foi muito bom poder viver os meus dias ao lado deles.

E houve assim uma situação mais caricata, alguma coisa assim engraçada que nos pudesse contar e que se calhar não vamos ver em gravações? 

Acho que tudo o que é engraçado está lá. O Pedro até pôs coisas em que eu dizia: "Ó Pedro, tu não ponhas isto, pelo amor de Deus”. Depois de acabar, depois de pensar já tinha acabado de gravar, não é, que já podia dizer alguns disparates, algumas asneiras, ele apanhava-me sempre ali. 

E houve algum prato que gostava de ter apresentado e não tivesse havido hipótese?

Acho que ficou muita coisa para ver e ficou muita coisa para mostrar daquilo que a Noélia é, daquilo que a Noélia tem capacidade. Isso foi só uma primeira introdução daquilo que a Noélia é. Há muito para ver e há muito para mostrar.

Belcanto. Restaurante de José Avillez é um dos melhores do mundo

O Belcanto, do chef José Avillez, é o único restaurante português na primeira metade da lista dos The 50 Best Restaurants. Será preciso esperarmos até novembro para conhecermos a lista completa e os melhores restaurantes do mundo.

Adriano Guerreiro | 11:07 - 21/10/2026