China pode enfrentar estagnação económica semelhante à do Japão
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O economista chinês Yao Yang, antigo diretor da Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim, alertou, em entrevista à Lusa, para o risco de a China enfrentar uma estagnação económica semelhante à do Japão.
"Quando, no passado, os economistas estrangeiros alertavam para a 'japonização' da China, eu opunha-me sempre. Dizia que a China não se tornaria no Japão dos anos 1990. Mas hoje já não estou tão confiante para contrariar essa perspetiva", afirmou Yao.
O economista, atualmente diretor do Instituto de Finanças Avançadas de Dishui Lake, da Universidade de Finanças e Economia de Xangai, referia-se à possibilidade de a segunda maior economia mundial entrar num período prolongado de crescimento fraco, inflação reduzida ou deflação, semelhante ao vivido pelo Japão após o rebentamento da bolha imobiliária e financeira no início da década de 1990.
Yao, de 61 anos, considerou que existe um contraste entre a perceção internacional da China como potência económica e tecnológica e as preocupações manifestadas internamente pelos economistas.
"Dentro da China, existe um debate intenso sobre o rumo do país, e a maioria dos economistas está preocupada com a falta de procura interna", afirmou.
O académico apontou a debilidade do consumo, a persistência de pressões deflacionistas e a contração do investimento como sinais de alerta.
"Todos os sinais se estão a acumular. Estou profundamente preocupado", declarou.
Segundo o economista, a fraqueza da procura interna está a levar Pequim a depender das exportações para sustentar a atividade económica, apesar das crescentes tensões comerciais com os principais parceiros internacionais.
"A China quer ter uma boa relação com a União Europeia, mas o problema é que a procura interna chinesa é muito fraca", afirmou. "Por outro lado, a China tem uma enorme capacidade produtiva, pelo que o Governo central é obrigado a promover as exportações", acrescentou.
Os dados económicos divulgados esta semana ilustram o contraste entre a debilidade da procura interna e o desempenho do setor exportador. A economia chinesa cresceu 4,5% no terceiro trimestre, em termos homólogos, acelerando face aos 4,3% registados entre abril e junho, impulsionada pela robustez das exportações.
Em setembro, as exportações chinesas aumentaram 36% face ao mesmo mês de 2025, enquanto o excedente comercial acumulado entre janeiro e setembro atingiu 938.000 milhões de dólares (836.000 milhões de euros), aproximando-se do recorde de 1,2 biliões de dólares (quase 1,1 biliões de euros) registado no conjunto do ano passado.
O desequilíbrio comercial é particularmente visível nas relações com a União Europeia, que regista um défice de mais de mil milhões de euros por dia nas trocas com a China. Nos primeiros nove meses do ano, as exportações chinesas para o bloco europeu aumentaram 16%.
O crescimento das exportações contrasta com a persistente fraqueza do consumo interno, afetado pela crise prolongada do setor imobiliário, que reduziu a riqueza das famílias e incentivou a poupança.
A debilidade da procura interna é igualmente visível no investimento. Segundo dados do Gabinete Nacional de Estatística da China, o investimento em ativos fixos caiu 7,2% nos primeiros oito meses do ano, incluindo uma contração de 19,9% no setor imobiliário e de 10,1% no investimento privado.
Yao defendeu que o Governo chinês deve encontrar um maior equilíbrio entre a promoção do consumo e o investimento no progresso tecnológico, duas prioridades que, na sua opinião, não devem ser encaradas como contraditórias.
O economista criticou também a pressão exercida pelo Governo central sobre as administrações locais para reduzirem o endividamento, considerando que a dimensão das dívidas acumuladas torna praticamente impossível o seu reembolso nas atuais condições.
"O Governo central está a obrigar os governos locais a pagar as suas dívidas. Isso é praticamente impossível. A dívida é demasiado grande", afirmou.
Segundo o académico, algumas administrações locais enfrentam dificuldades para pagar aos funcionários e fornecedores, com consequências para as cadeias de abastecimento e o consumo.
"O Governo central tem de pensar não apenas em aliviar a pressão, mas também em resgatar os governos locais", defendeu.
Yao considerou igualmente que a correção do mercado imobiliário chinês foi excessiva e apelou à adoção de medidas mais ambiciosas para travar a queda do setor.
"A correção no setor imobiliário foi demasiado profunda, foi longe de mais", afirmou.
O economista recordou que as vendas anuais de imóveis chegaram a atingir 1.800 milhões de metros quadrados, mas caíram entretanto para cerca de metade.
Segundo Yao, alguns responsáveis governamentais admitem que o mercado só poderá estabilizar quando as vendas recuarem para cerca de 500 milhões de metros quadrados anuais, um cenário que considera excessivamente penalizador para a economia.
O académico identificou ainda a aversão ao risco entre os funcionários públicos como um obstáculo à recuperação económica, atribuindo parte do problema aos efeitos da campanha anticorrupção e ao reforço da disciplina interna do Partido Comunista Chinês.
"A campanha anticorrupção tem um grande impacto na tomada de decisões dos funcionários públicos", afirmou. "Ninguém quer tomar a iniciativa, porque tomar a iniciativa implica correr riscos", acrescentou.
Segundo o economista, os responsáveis governamentais reconhecem muitos dos problemas económicos e conhecem possíveis soluções, mas receiam assumir responsabilidades pelas decisões.
"Os responsáveis governamentais não querem assumir responsabilidades. Veem o problema, sabem como resolvê-lo, mas falta determinação dentro do Governo", afirmou.
Apesar das preocupações, Yao considerou que a China mantém um potencial de crescimento económico anual entre 5,5% e 6%, desde que Pequim altere as suas prioridades e reforce o estímulo à procura interna.
"Continuo a acreditar que a economia chinesa tem potencial para crescer entre 5,5% e 6%. Temos capacidade de produção, mas a procura não acompanhou a oferta", afirmou.
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