Comprar casa? "O meu pai emigrou". Presidente do IHRU gera polémica
...
O presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamim Pereira, questionou, na quinta-feira, os sacrifícios dos jovens para comprar casa, sendo que estas declarações estão a gerar polémica. São classificadas de "profundamente infelizes" pelos estudantes e já levaram o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, a tecer críticas e a pedir esclarecimentos.
Afinal, o que disse o presidente do IHRU?
Na quinta-feira, o presidente do IHRU disse não saber "se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício" da anterior, recordando que os seus próprios avós emigraram "para poderem ter uma casa".
"Já fomos todos jovens, não é? (...) E percebemos essa dificuldade. Eu não sei se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa", disse aos jornalistas Benjamim Pereira, em Vila Nova de Gaia (Porto).
Falando acerca das manifestações pela habitação que têm ocorrido sobretudo no Porto e em Lisboa, e questionado sobre se a geração atual está disposta a menos sacrifícios do que a geração anterior, o responsável do IHRU disse não querer ir "por esse caminho".
"Só estou a dizer que os meus avós emigraram para o Brasil e para a Argentina para poderem ter uma casa. O meu pai emigrou durante 20 anos, sacrificou a vida", prosseguiu, e perante as questões dos jornalistas sobre se os jovens também devem emigrar, afirmou que não estava "a dizer isso".
Pedindo para "concluir o raciocínio", Benjamim Pereira disse que os seus familiares emigraram "porque a casa era, efetivamente, uma coisa muito importante para a sua vida, a sua base logística, como é hoje".
"É preciso que haja um compromisso de todos. Reparem, os jovens podem organizar-se, fazer cooperativas. Eu já recebi pessoas no IHRU, agora com os seus 60 e 70 anos, que quando eram da idade dos jovens que agora se estão a manifestar organizaram-se, fizeram cooperativas e fizeram as suas próprias casas", afirmou.
Frisando que fazia "um apelo" e não "uma crítica", Benjamim Pereira pediu "a todos que se possam unir" pois "é um problema que tem de ser resolvido por todos e os jovens também fazem parte desta equação".
Segundo Benjamim Pereira, "não se vai resolver o problema da habitação (...) durante os próximos anos, é preciso todos termos consciência disso".
Porém, expressou otimismo quanto ao decreto-lei proposto pelo Governo para a habitação, n.º97/2026, "que vai, com toda a certeza, dar um enorme contributo para resolver o problema da habitação".
As reações às declarações ("profundamente infelizes")
As reações às declarações do presidente do IHRU não demoraram a chegar: Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda (BE), criticou o que considerou ser o "descaramento" de Benjamim Pereira: "O presidente do IHRU ganha mais de 7.600€ por mês e tem o descaramento de pedir sacrifícios aos jovens mileuristas. É uma total falta de noção e de vergonha. Demita-se!", escreveu o deputado único do Bloco de Esquerda na rede social X.
O deputado único do BE requereu ainda a audição urgente do presidente do IHRU no Parlamento, após as suas declarações acerca das manifestações contra a crise neste setor.
Também o Partido Socialista (PS) condenou estas declarações, através do vice-presidente da bancada socialista Luís Testa: "Estranhamos muito que hoje o presidente do IHRU venha dizer à comunicação social que os jovens têm falta de espírito de sacrifício. É intolerável um dirigente público manifestar-se relativamente a pessoas, a jovens, que não têm outra coisa à sua frente que não seja sacrifício".
Luís Testa disse que apesar de se poder "sensibilizar muito com a história de vida da família" do presidente do IHRU, a preocupação do PS é com "a vida dos portugueses e principalmente dos jovens".
"O sacrifício que esta camada etária tem pela frente na sua vida não é compatível com afirmações jocosas por parte de um dirigente da administração pública", lamentou.
Também a Federação Académica de Lisboa (FAL) criticou as declarações do presidente do IHRU sobre as manifestações contra a crise neste setor. Num comunicado assinado pelo presidente Pedro Neto Monteiro, a FAL manifestou discordância com os comentários de Pereira, que descreveu como "profundamente infelizes", e rejeitou "a normalização dos sacrifícios exigidos aos jovens para aceder à habitação".
Já o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, disse na quinta-feira que as declarações de Benjamim Pereira são "absolutamente infelizes" e revelou ter pedido esclarecimentos ao gabinete do presidente do IHRU.
"Absolutamente infelizes. Absolutamente infelizes", disse o governante, acrescentando: "Claro que a atual geração faz sacrifícios. Não me revejo nessas declarações".
Por outro lado, Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, disse não ver um "caso" nas declarações de Benjamim Pereira.
"Se aquilo que o presidente do IHRU - que foi o eu entendi das declarações - [quis] dizer foi: 'Os jovens hoje não querem, nem devem, fazer os sacrifícios que outrora se fizeram e que levaram muitos portugueses a emigrarem à procura de uma solução para a habitação' - eu estou de acordo", apontou Hugo Soares em entrevista na SIC Notícias.
Quando o presidente do IHRU diz que os jovens não estão "disponíveis" para fazer esse sacrifício, "eu concordo com ele: não estão e bem", salientou o social-democrata.
"Não vejo aqui caso, honestamente. Percebo que nós estamos todos com um grau de conflitualidade no debate político e público demasiado alto, mas eu não vejo caso nas palavras do senhor presidente do IHRU, porque eu entendi-as desta forma: 'Os jovens não querem fazer nem devem fazer este sacrifício'. Ele diz que os jovens não devem emigrar, ele diz exatamente isso", reiterou.
Recorde-se que entre manifestações e as denominadas acampadas com centenas ou milhares de manifestantes, os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades, dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.
Leia Também: Manifestantes pela habitação não pernoitaram no Rossio e desmobilizaram