Eleições em Israel. 3 anos de guerra já chegam: "Quero jantar em Beirute"
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A dois passos do Líbano, as comunidades do norte de Israel tentam retomar vidas interrompidas por três anos de confrontação direta com o Hezbollah, cansadas de um estado de guerra permanente que o próximo governo deve acabar.
A poucos dias de umas das eleições mais incertas de sempre em Israel, pavimentam-se estradas, que acumulam o trânsito em sofrimento, e ladeadas por abrigos antiaéreos em betão, porque a guerra parece suspensa em Mate Asher, mas os seus habitantes estão habituados a ciclos de paz de curta duração.
O último começou a centenas de quilómetros de distância e do outro lado do país, no dia 07 de outubro de 2023, quando os ataques do grupo islamita palestiniano Hamas no sul de Israel marcaram a abertura de frentes de conflito em várias direções, incluindo em Mate Asher.
Não tinham passado dois meses quando este município de 35 mil habitantes à beira do Mediterrâneo tinha passado com distinção uma inspeção militar sobre resposta a desastres naturais e também ataques armados, que rapidamente se confirmaram quando o grupo xiita Hezbollah começou a disparar 'rockets' a partir do Líbano sobre o norte de Israel, em solidariedade com o Hamas.
"A nossa sorte foi o Hamas e o Hezbollah não terem atacado em simultâneo no dia 07 de outubro", recorda Ishai Efroni, chefe da segurança de Mate Asher sobre os dois grupos armados aliados do Irão.
Naquela manhã de 2023 em que perdeu um irmão no Festival Nova, juntando-se a cerca de 1.200 mortos nos ataques das milícias palestinianas, no outro extremo do país, a autarquia pôs de imediato em marcha um plano de retirada das comunidades mais próximas da fronteira com o Líbano e vulneráveis a uma eventual operação semelhante do Hezbollah.
Mesmo antes de o Governo central começar a pagar alojamentos em hotéis em zonas seguras, num movimento de mais de 60 mil deslocados, milhares de pessoas de Mate Asher já estavam a abandonar as suas casas, incluindo Ishai Efroni, antes de o seu 'kibutz' a apenas dois quilómetros da fronteira ser atingido por um míssil.
Três anos depois de confrontação aberta entre Israel e Hezbollah, "95% das pessoas já voltaram", segundo o responsável de segurança do município, as sirenes de alarme aéreo deixaram de soar há alguns meses, os negócios reabriram e as escolas funcionam normalmente.
Mas a guerra deixou cicatrizes de destruição um pouco por todo o norte do país e graves sequelas na saúde mental, com um aumento acima dos 50% de casos clínicos e famílias separadas por uma vaga de divórcios resultantes de longos períodos de isolamento forçado, numa réplica da pandemia de covid-19.
No plano político, o chefe do município de Mate Asher e também do Fórum de Comunidades da Linha de Confronto (que reúne autarcas e líderes comunitários do norte de Israel) comandou uma bateria de críticas ao Governo de Benjamin Netanyahu, acusando-se de falta de apoio para a reconstrução, no que descreveu como "uma bofetada na cara dos cidadãos que servem de escudos humanos do país".
Em rutura assumida, Moshe Davidovich juntou-se ao Yashar!, do ex-general Gadi Eisenkot, o político em melhor posição para destronar o atual Governo nas legislativas de 27 de outubro e que ocupa simbolicamente o 40.º lugar nas listas do partido ao parlamento, mas de quem se fala que pode assumir uma pasta ministerial para a reconstrução do norte.
Do outro lado da fronteira, o exército israelita retaliou desde 2023 com fortes campanhas de ataques aéreos no Líbano e invadiu o sul do país, até ao cessar-fogo alcançado em novembro do ano seguinte, que nunca foi integralmente respeitado.
O Hezbollah retomou os ataques contra Israel em março deste ano, no seguimento da ofensiva israelo-americana contra o Irão, levando a uma resposta ainda mais musculada das forças israelitas, que intensificaram os bombardeamentos de alegadas alvos do Hezbollah e expandiram as posições militares que já ocupavam no sul do país vizinho, entretanto destruído.
Apesar de nem Eisenkot nem os principais líderes de oposição defenderem que se baixe a guarda com o Hezbollah, o chefe da segurança de Mate Asher defende que, pelo menos, o governo que emergir das próximas eleições deve posicionar-se ao centro e longe dos extremos, incluindo os ultranacionalistas de direita no atual executivo.
"É importante unir o país outra vez enquanto lidamos com o Irão e o Hezbollah", comenta Ishai Efroni, que também espera que Israel e a comunidade internacional apoiem o Governo libanês nas inéditas negociações de paz com Telavive e nos seus esforços para desarmar as milícias xiitas, "porque três anos de guerra já chegam".
A guerra há muito que "não é solução" para Ran Gefen, um vendedor de bicicletas junto de Shavei Tzion, uma pequena localidade costeira de Mate Asher, e que não conheceu outra realidade ao longo dos seus 52 anos.
"As pessoas podem mudar, mas até agora não tem resultado e isto funciona tanto para o Hamas em Gaza como para o Hezbollah", observa na sua loja e oficina entre dois clientes, finalmente de volta depois de uma longa ausência.
Ran Gefen é perseguido pelo espetro da violência armada desde a primeira guerra do Líbano, nos anos 1980, ali mesmo à frente desta região onde cresceu, e de onde não tenciona sair, apesar de saber que os períodos de trégua "são apenas temporários" e que ambos os lados "apenas se estão a armar e preparar" para o confronto seguinte.
Quando se casou, fez uma grande viagem que o levou à Austrália, Nova Zelândia e Europa e ainda pensou em comprar uma pequena quinta para reiniciar a vida noutro país com a família e em paz, mas acabou por ceder à influência do padrasto de que Mate Asher "é o melhor lugar do mundo para se viver", num ambiente de algumas das áreas naturais mais exuberantes de Israel e vastas comunidades organizadas em 18 'kibbutzim', por sua vez associados a um espírito comunitário e de entreajuda.
O seu chama-se Matzuva, fica situado a pouco mais de um quilómetro da fronteira, e foi evacuado logo ao meio-dia de 07 de outubro de 2023, poucas horas depois dos ataques do Hamas no sul do país e antes os primeiros 'rockets' do Hezbollah começarem a chover na Galileia Ocidental
Como resultado imediato, a família recuou para a cidade de Haifa, mas os três filhos ficaram separados em diferentes zonas de acolhimento, enquanto o padrasto de 92 anos se alojou num lar de onde nunca mais saiu.
Apesar de sucessivas tréguas anunciadas e da "zona de segurança" criada pelo exército israelita no sul do Líbano, os relatos de novos ataques no país vizinho prosseguem e o Governo de Netanyahu continua a ameaçar que não vão parar até eliminar o Hezbollah, tendo como resultado que a situação na região fronteiriça se mantenha frágil.
"Israel é um pequeno país numa máquina muito grande, que inclui Estados Unidos e Irão, e a paz só pode chegar com um compromisso global", segundo Ran Gefen, que também confia que, "num mundo cada vez mais tomado pela direita", o seu país possa dar "um primeiro passo em direção à mudança" nas legislativas da próxima semana.
Os seus clientes árabes "também acreditam nisso", do mesmo modo que o vendedor de bicicletas sonha com o dia em que possa cruzar a fronteira sem medo e pedalar até à capital libanesa.
"Quantos mais mil, dez mil mortos serão precisos?", questiona, antes de sentenciar: "Eu não quero a guerra, quero poder jantar em Beirute".
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