Eleições: O carioca que trocou o Rio por um kibbutz com vista para Líbano
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Um brasileiro radicado há cinco décadas no 'kibutz' Yehiam, no nordeste de Israel encostado ao Líbano, ainda acredita numa oportunidade para a paz com o país vizinho, mas a mulher foi tomada por uma desconfiança difícil de ultrapassar.b
David Grossmann, um assumido sionista de 73 anos, trocou o Rio de Janeiro por esta comunidade na Galileia Ocidental quando conheceu Israel pela primeira vez, em plena guerra de Yom Kippur em 1973, acabando por ficar de vez, servir no exército e casar com Aviva, uma israelita nascida na Tunísia.
Mas foi outra guerra que os afastou de Yehiam, logo após o grupo xiita Hezbollah ter iniciado lançamentos de 'rockets' no outono de 2023 contra o norte de Israel, agindo em apoio do seu aliado palestiniano Hamas, que, por sua vez tinha acabado de executar os ataques do 07 de Outubro, que marcaram as suas vidas e do seu país nos seus últimos três anos, e um fantasma sempre presente nas legislativas da próxima semana.
Logo a seguir ao dia mais sangrento da história de Israel, o casal deixou o 'kibbutz' para apoiar a filha, que estava grávida em Telavive, e que acabou por ser retirada do país pelo Governo brasileiro.
"Daqui não saiu quase ninguém", recorda David Grossmann, apesar de o Líbano ficar a apenas cinco quilómetros em linha reta e um quase nada mais afastada do que outros 17 'kibbutzim' do município costeiro de Mate Asher que foram integralmente evacuados de imediato.
De regresso em menos de duas semanas, Yehiam era um lugar diferente. Cerca de 200 soldados israelitas já se encontravam ao longo do complexo de árvores frondosas e jardins bem tratados, em proteção dos 95 residentes permanentes e de outras centenas que trabalham nos vastos campos de produção de bananas a abacates.
Afinal, as milícias palestinianas tinham acabado de massacrar cerca de 1.200 pessoas em lugares semelhantes no sul do país e o casal Grossmann reconhece que acabou por ter alguma sorte por o Hezbollah não ter feito o mesmo - "até porque é muito mais forte do que o Hamas".
Para todos os efeitos, a guerra veio para ficar.
Em confronto direto assumido, as foças israelitas responderam com bombardeamentos intensivos no Líbano e, no final do verão de 2024, invadiram o sul do país vizinho para criar "uma zona de segurança" de proteção do norte de Israel, que se tornara alvo de ataques aéreos frequentes do Hezbollah. Mais de 60 mil pessoas foram deslocadas e muitas propriedades e infraestruturas ficaram destruídas no norte do país.
Os 'rockets' do Hezbollah tinham entrado na rotina dos 35 mil habitantes do município de Mate Asher, conscientes de um tempo limitado de apenas uns segundos para procurar abrigo quando soam os alarmes aéreos em comparação com alguns minutos nas grandes cidades mais a sul.
A situação ficou ainda pior quando, em fevereiro deste ano, Israel e Estados Unidos atacaram o Irão, arrastando o seu aliado Hezbollah, que voltou a visar o norte de Israel, quebrando um cessar-fogo entretanto em vigor, mas que nunca foi verdadeiramente respeitado por ninguém.
"Nada é pior do que a guerra. Chegámos a ter períodos de ataques todos os dias", lembra David Grossmann, que várias vezes foi apanhado pelo eco das sirenes quando seguia de carro em plena estrada. Mas em casa também não tem dinheiro para gastar quase cem mil euros num abrigo. Mais uma vez, houve alguma sorte e o único míssil que atingiu o 'kibbutz' caiu numa zona de plantações.
Nos últimos meses, a ofensiva de Israel tornou-se ainda mais vigorosa, com grandes campanhas de bombardeamentos em Beirute, no sul e leste do Líbano, e foram acrescentados vários quilómetros à "zona de segurança" no país vizinho, para lá do rio Litani e cada vez mais perto da capital libanesa, como já acontecera noutras guerras passadas.
Os ataques do Hezbollah tornaram-se mais limitados e a vida voltou à quase normalidade em Mate Asher e ao 'kibbutz' de Yehiam, onde as crianças brincam livremente nos parques infantis e os moradores dedicam-se às atividades agrícolas e fábrica de enchidos que alimentam a comunidade.
Embora estabelecidos no local há décadas, e com vários ciclos de guerra acumulados na história do país, o casal sente que os últimos três anos foram "especiais" e de algum modo transformadores, embora em direções diversas.
"O valor da vida mudou. Infelizmente, também mudou a minha relação com os árabes. O meu jardineiro é árabe, eu nunca fechava a casa, a confiança era total. Agora sou outra pessoa e muito mais desconfiada", descreve.
David compreende as palavras da mulher, mas frisa que continua "a acreditar no Homem e no desejo de paz", ainda que, do outro lado da fronteira, tenha dificuldade em compreender que outras comunidades civis tenham sido atingidas pela mesma guerra, "porque são todos Hezbollah".
Do mesmo modo, o 07 de Outubro "complicou tudo" a respeito da solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano, avalia o brasileiro e a mulher reforça: "Já não consigo acreditar".
A governação de Benjamin Netanyahu, agora em jogo nas eleições de 27 de outubro, "fez coisas boas por Israel", segundo o antigo engenheiro mecânico, mas o atual primeiro-ministro está também associado a longos períodos de poder, o que faz dele "o rei Bibi", em referência à sua alcunha de infância, mais uma polémica reforma judicial vista como tentativa de controlar a justiça que ele próprio enfrenta por corrupção.
No flanco mais frágil do candidato do partido Likud à recondução do atual Governo, o carioca de Yehiam elenca ainda a sua gestão do 07 de Outubro e a forma como deixou os seus aliados de extrema-direita atuar no Governo de coligação, por sua vez apoiados pelos judeus ultraortodoxos, que "não querem combater nem trabalhar". Em suma: "Não gosto de Netanyahu e quero que vá embora".
Criado em 1946 pouco antes da fundação doo Estado de Israel por sobreviventes húngaros do Holocausto, o 'kibbutz' de Yehiam está ligado a um passado de esquerda e todas as de decisões devem ser tomadas coletivamente. No passado, podiam ter influência no sentido de voto ou "até se um casal podia ter um filho".
Em coerência, a comunidade deveria votar na aliança de esquerda Democratas, uma fusão do Partido Trabalhista com o Meretz liderada por Yair Golan, que, embora seja incluída no bloco de oposição que pode sustentar o futuro Governo, mantém divergências de fundo com o Yashar!, a formação de centro-direita do ex-general Gadi Eisenkot, que lidera as sondagens, desde logo sobre a criação do Estado Palestiniano.
Hoje, "já ninguém fala de esquerda e até a oposição se tornou de direita", observa David Grossmann, e até nisso o 07 de Outubro teve u efeito de mudança na estrutura do pensamento político. "Dantes, apoiaria a paz a 100%. Agora, queremos a paz com cuidado", prossegue, enquanto assinala reservas mais próximas do discurso do partido no poder, como "o Irão quer controlar o mundo"
A região de Mate Asher tem reputação de um dos cantos mais bonitos de Israel, no extremo noroeste do país, entre as águas temperadas do Mediterrâneo e vastas áreas verdes, de onde emerge o Parque Natural da Fortaleza de Yehiam
As ruínas da fortaleza remontam aos períodos dos cruzados e dos otomanos e também testemunharam combates mais contemporâneas, como a luta de independência de Israel e outros mais recentes ainda, nos ciclos sucessivos de confrontação com o vizinho Líbano e o grupo xiita Hezbollah.
Dominando a encosta do 'kibbutz', continua a ser ao mesmo tempo uma mensagem simbólica para os moradores de que a guerra em Yehiam continua ser real e não apenas uma atração turística de memórias de lutas antigas.
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