"Tipo de catarses que humor provoca é único. Riso é gasolina do espírito"
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Chegou às salas de cinema há precisamente uma semana, no dia 15 de outubro, o filme "O Pecado Mora em Cima", que nos traz de novo o icónico casal da ficção brasileira interpretado por Miguel Falabella e Marisa Orth.
Cerca de 30 anos depois de terem dado vida a Caco e Magda em "Sai de Baixo", os atores voltam a fazer par romântico neste novo filme, mas desta vez no papel de Lusa e Iara.
Como nos descreve a sinopse, todo o filme é passado num prédio português com dois casais a partilharem o mesmo edifício, mas que vivem em universos distintos. "Iara e Lusa, brasileiros, enfrentam o silêncio e o desgaste de um casamento marcado pela rotina e pela distância emocional e do seu país. No andar de cima, Pedro [papel de Pedro Carvalho] e Inês [personagem de Inês Aires Pereira], portugueses e mais jovens, vivem uma relação intensa, marcada por energia, impulsividade e uma intimidade ainda vibrante."
"Entre paredes finas, diálogos cortantes e mal-entendidos culturais, o convívio entre os dois casais transforma-se num palco de riso, desconforto e revelações", detalha-se ainda, destacando igualmente que esta comédia "usa o humor de costumes para explorar o amor, a identidade e a experiência da emigração - e o que acontece quando tentamos, mesmo perdidos, reencontrar o outro e a nós mesmos".
Miguel Falabella respondeu às perguntas enviadas pelo Notícias ao Minuto e abordou abertamente as questões expostas em "O Pecado Mora em Cima", sem deixar de lado o seu icónico papel em "Sai de Baixo", Caco, que fazia par romântico com Magda, personagem interpretada por Marisa Orth.
Mas não ficou por aqui e houve também espaço para partilhar, durante a entrevista, algumas histórias vividas em Portugal que guarda na sua memória e coração.
Além do filme, o ator brasileiro e Marisa Orth também estão nos palcos portugueses com a peça "Quando Menos Se Espera", que tem ainda no elenco Carla Andrino, Marta Andrino, Tiago Aldeia e Frederico Reuter.
Viver bem dentro do seu corpo envelhecido, que é o caminho natural de todos nós, é uma questão que precisa de ser falada e precisa de ser vivida sem constrangimentos
"O Pecado Mora em Cima" é uma comédia que fala sobre o desejo, a intimidade e as fragilidades da vida de um casal, abordando duas perspetivas diferentes, dois casais diferentes: Iara e Lusa, e Inês e Pedro. No caso da sua personagem, Lusa, é um professor de literatura portuguesa. A leitura que ele faz dos outros é tão certa como a que faz dos livros?
Por mais que tente ser um homem progressista e avançado, até pelo histórico dele - o pai foi um militante -, o Lusa é muito conservador, no fundo, na relação que ele estabelece com a Iara. E acho que ele se assusta muito com a chegada do Pedro e da Inês, mas, na verdade, ele acabava por entender que aquele casal veio para abrir uma nova porta dentro da própria relação dele com a Iara. Não acho que ele faça uma leitura dos outros tão certa como a que ele faz dos livros.
Colocando-se na pele de Lusa, que escritor escolheria para explicar a vida deste personagem? E porquê?
Vejo-o como um personagem de Vargas Llosa. Vargas Llosa tem esses personagens muito detalhados no seu emocional, na sua vivência, esses homens que já viveram muito e que lançam um olhar diferente para a vida. Não sei porquê, mas escolheria Vargas Llosa.
No caso do casal Iara e Lusa, destaca-se o momento delicado que vivem no que diz respeito à intimidade. O desejo é um desafio comum a dada altura em todas as relações? E será que isso deve-se à rotina ou a uma ideia de que a partir de uma certa idade não temos direito a esse desejo?
Acho que, obviamente, os desejos diminuem com o correr dos anos, porque a produção hormonal é outra. A vida não está no seu apogeu, já dizia Florbela Espanca, há uma primavera em cada vida, então, mesmo a vida não estando em seu apogeu, eu acho que a fantasia não morre nunca. Viver bem dentro do seu corpo envelhecido, que é o caminho natural de todos nós, é uma questão que precisa de ser falada e precisa de ser vivida sem constrangimentos. O etarismo tenta constranger o desejo mais velho.
O humor é a melhor maneira de se dizer a verdade às pessoas, melhor até do que a carta anónima. Isso é uma frase do Jean Giraudoux que eu adoro e que gosto de repetir sempre
A dada altura, numa cena com a personagem de Pedro Carvalho, acaba por refletir: "Uma casa não se tem. Ou constrói-se, ou destrói-se, mas depois é necessário reconstrui-la com os mesmos tijolos porque é caro demais comprar tijolos novos." Que reflexão faz sobre o tema enquanto Miguel Falabella e o que retira da sua própria experiência?
É uma frase muito interessante, porque é como as relações. A casa, no sentido de um relacionamento, que se constrói quotidianamente e que pode-se abandonar. A casa precisa de conservação, os relacionamentos idem. Se você não tem uma manutenção no seu relacionamento, ele vai-se deteriorar da mesma maneira que a sua casa vai-se deteriorar, se não for restaurada. Isso é um aprendizado. Não sei se nós temos uma tendência de errar os mesmos erros, mas, enfim, tenta-se.
O humor pode ser uma boa ferramenta para dizer as verdades nas relações humanas, e no amor, que às vezes quando ditas a sério podem ser difíceis de ouvir?
O humor é a melhor maneira de se dizer a verdade às pessoas, melhor até do que a carta anónima. Isso é uma frase do Jean Giraudoux que eu adoro e que gosto de repetir sempre. O humor, o tipo de catarses que o humor provoca é completamente diferente e único. E corpos sorridentes são corpos mais livres, mais felizes. Eu continuo achando que o riso é a gasolina do espírito.
Minha relação com a Marisa é de muitos anos, então nós temos uma coisa muito preciosa, que é o entendimento do tempo do outro
Faz par romântico com Marisa Orth, com quem já fez também par romântico em "Sai de Baixo". O que é que hoje conseguem fazer juntos enquanto atores que se calhar há 20/30 anos não faziam? E a cumplicidade que criaram com as personagens Caco e Magda foi útil para construir este Lusa e Iara?
Primeiro, minha relação com a Marisa é de muitos anos, então nós temos uma coisa muito preciosa, que é o entendimento do tempo do outro. Você entender o tempo do colega, ter um nível de intimidade em que eu sei exatamente onde ela vai respirar, e me encaixo. Nós nos encaixamos com facilidade, e o público reconhece isso. Essa dança das palavras, essa brincadeira, esse "à vontade" em cena, porque só Deus sabe o quanto nos custa estar à vontade em cena, mas, enfim, é um prazer, uma honra trabalhar com ela esses anos todos e acho que é uma honra termos, sem o saber, nos tornado personagens icónicos da cultura popular.
E que reações tem recebido sobre o filme? Sente quando olham para o Miguel e para a Marisa é inevitável não verem logo Caco e Magda? Como é que se consegue construir um novo casal quando o público já tem a imagem tão marcada com personagens anteriores?
Não tenho nenhum problema ao ser identificado ou confundido com o Caco, acho que quando nós estávamos filmando a série há 30 anos, nunca podíamos imaginar que se iria tornar tão icónica como tornou, tanto é que 30 anos depois estou aqui, falando desse personagem. Acho que as pessoas gostam de alguma forma de se lembrar de momentos em que foram felizes, e é uma geração que foi feliz a assistir a essa série.
Acho que a humanidade não aprende com os próprios erros. Continuamos errando e buscando futuros sombrios
A dada altura, logo no início do filme, a sua personagem traz a política. Lusa diz que o seu pai foi para o Brasil para fugir de Salazar e que agora fez o caminho de volta, justificando que a vinda para Portugal foi por não se identificar com a política de Bolsonaro. O que permite estabelecer este paralelo entre dois contextos históricos tão diferentes? As sociedades aprenderam ou não com o passado?
Esse dado, que nem é tão esmiuçado assim no filme, de que o pai dele teria fugido do regime Salazarista e que ele teria feito o caminho de volta, vindo para Portugal, fugindo do Bolsonarismo, é para obviamente dar um cunho político à personagem. Regimes de exceção, regimes autoritários sempre produzem exilados por toda a parte e em todo lugar. Ainda assim, o foco do filme é mais na experiência do casal, da vida do casal, mas esse dado é interessante. Acho que a humanidade não aprende com os próprios erros. Continuamos errando e buscando futuros sombrios.
Além do filme, também está nos palcos portugueses com a peça "Quando Menos Se Espera". E esta não é a sua primeira vez em Portugal. O que é que encontra no público português que o faz querer continuar a trabalhar por cá?
Obviamente, eu sou feliz aqui. Todo o artista busca o seu público e se eu tenho estado tanto aqui é porque encontrei um público muito afetuoso e respeitoso. É uma alegria trabalhar aqui, como é uma alegria trabalhar no Brasil. Acho que quanto mais pudermos abranger os palcos da comunidade Lusófona melhor. Também já me apresentei em Angola, mas claramente tenho Portugal num lugar bom do meu coração. Sou muito feliz aqui.
Entendo a minha profissão como atos de generosidade, você bota o tapete para o outro brilhar, porque se não fizer isso você também não brilhará. Não me levo tão a sério como já me levei
E tem alguma história mais caricata ou mais marcante que tenha vivido cá em Portugal?
As histórias caricatas têm sempre a ver com os sotaques das diferentes terras. Lembro-me de uma vez que uma senhora me abraçou e rapidamente me contou uma história, numa torrente de palavras, e quando acabou ela me olhou na minha cara e disse: "O senhor não percebeu nada, pois não?" [risos]. E eu falei: "Não, não percebi" [risos]. E também tenho muitas histórias de afeto. Um senhor que conheci em Vila Real, me viu na rua, ficou emocionado e disse: "Você me lembra o Brasil. Fui jovem para o Brasil, passei minha juventude lá, os meus filhos nasceram lá". Ele tinha voltado para Vila Real e fez um jantar para mim na casa dele com toda a família. E tenho muitas mais histórias assim.
Depois de tantos anos a interpretar personagens e a contar histórias, o que é que o Miguel aprendeu sobre si nestes anos de carreira através dos papéis que já fez?
Aprendi com esses anos todos de carreira principalmente a não dar muita importância às coisas, porque elas passam. A vida passa muito rapidamente e, no final, a única coisa que você lembra são dos momentos de delicadeza. As pessoas que eu me lembro são os colegas. Se me perguntar quais os colegas com que mais gostei de trabalhar, são aqueles que são delicados no trato. Aqueles onde a vida é mais generosa. Até porque eu entendo a minha profissão como atos de generosidade, você bota o tapete para o outro brilhar, porque se não fizer isso você também não brilhará. Então é isso, eu não me levo tão a sério como já me levei.
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